DO
TERREIRO À ARENA: UMA BREVE HISTÓRIA DO BOI-BUMBÁ FONTEBOENSE
O
boi-bumbá Corajoso da Cidade Nova defende
as cores azul e branca, e têm historicamente ligações com as famílias Freitas,
Cajaca, dentre outras. É um boi de pano preto com uma estrela de quatro pontas
na testa e uma barra de pano branca, confeccionado com tecido, lycra, fibra, madeira e espuma, sendo
chamado por seus torcedores de “boi do povão”. Juridicamente chama-se
Agremiação Folclórica Boi-Bumbá Corajoso, CNPJ-05.421.021/0001-02, com sede
provisória na rua Barnabé Gomes - s/nº - Cidade Nova. O boi-bumbá Tira-Prosa da
Cidade Velha ostenta as cores vermelha e branca e tem forte vínculo com a
família Lisboa (sua fundadora na época de “escola”, e seus presidentes foram todos dessa família), sendo esta
considerada a sua marca como “boi da tradição”. É um boi branco confeccionado
com tecido, lycra, fibra, madeira e
espuma, com uma estrela vermelha de cinco pontas rodeada por dois galhos de
samambaia na testa e uma barra branca. Tem como nome oficial Associação
Folclórica Cultural de Fonte Boa Boi Bumbá Tira-Prosa, CNPJ - 05474239/0001,
com sede provisória na Rua Boulevard Álvaro Maia - s/nº - São Francisco I
(Cidade Velha).
A
festa popular do boi-bumbá em Fonte Boa quase não possui referências dos seus
primórdios em livros, documentos ou jornais. Praticamente tudo que sabemos vem
dos escritos dos próprios participantes do evento ou da memória daqueles que
brincaram nos terreiros à luz de lamparinas como seu Tinho, dona Creuza, seu
Arigó da Arapanca, seu Moaca, seu Catulino, seu Arlindo e tantos outros. A partir dos anos 90, ocorreu uma preocupação
em registrar a apresentação dos bois, o que nos possibilitou um conhecimento
maior sobre esta manifestação.
Conta
a tradição que muitos outros bumbás dançaram pelos terreiros e quadras
fonteboenses para depois desaparecerem, caso do boi Brilho-Dia, Pingo-de-Ouro, Banho-de-Ouro, Estrelinha, Mina-de-Ouro,
Corre-Campo, Caprichoso e Garantido, sendo que estes dois últimos
nominaram Corajoso e Tira-Prosa durante a transição de boi de escola para boi
de arena. Mas, por que Corajoso e Tira-Prosa permaneceram? Trabalhamos
com a hipótese de que estes bois, a partir dos anos 90, passaram a expressar
com muita clareza um jogo de oposição importante na organização sócio-política
da pequena cidade do interior.
Um dos fundadores do Festival Folclórico de
Fonte Boa, professor Humberto Lisboa, nos explica da seguinte maneira a
brincadeira do boi na cidade:
“Como outras manifestações folclóricas do país tem
origem na grande diversidade de povos que aqui se estabeleceram propiciando a
fusão de diversos elementos culturais. No início era uma brincadeira realizada
nas ruas e terreiros das residências. Eram dois bumbas: o Estrelinha, do centro da cidade, e o Tira Prosa, do bairro São Francisco.
No período de 1980 até 2002 passaram a se apresentar na quadra de esportes
municipal. Na década de 90 o evento evolui bastante e a disputa entre os bois
tomou ares de ‘guerra’ na
arena. O Tira Prosa, com as
cores vermelho e branco, e o Corajoso,
com as cores azul e branco, se tornaram famosos em todo estado do Amazonas”.
Uma
das hipóteses mais celebradas sobre o alvorecer da brincadeira do boi-bumbá em
Fonte Boa é apontada, com base em depoimentos, por Ronildo Bonet (2006, p.17):
Os primeiros relatos de brincadeiras de cunho
popular/coletivo afirmam que elas aconteciam nas ruas da cidade: manja,
brincadeira de roda, queimada e o boi bumba de terreiro. Sobre este folguedo
ultimo, sabe-se que a sua primeira aparição no município de Fonte Boa ocorreu
em uma das comunidades do rio Maiana (provavelmente a comunidade de
Barreirinha), trazido por um senhor nordestino chamado Dalmácio, que veio para
a Amazônia fugindo da grande seca e também atrás de riquezas com a borracha, em
meados dos anos 30.
A
descrição de Bonet encontra similaridade com os depoimentos orais de muitas
pessoas idosas que ressaltam a presença do senhor Dalmácio (alguns chamam de
Dalmazio) como um dos primeiros a apresentar a brincadeira do boi na zona rural
da cidade. Segundo essas pessoas, após retornar ao Nordeste, o senhor Dalmácio teria
deixado o costume de “colocar” o boi
para os seus filhos que, por conseguinte, o teriam trazido do interior para a
sede do município. O painel com fotografias antigas e textos apresentado pelo
PROFORMAR na quadra de esportes municipal em 2004, também destaca o senhor
Dalmácio como precursor da brincadeira do boi local.
Em
entrevista realizada com o Professor Sebastião Lima em outubro de 2008, o
informante afirmou, com base em depoimentos dos moradores mais antigos da
cidade, que o boi local é anterior à década de 30:
“Nos primórdios de sua criação, as brincadeiras dos
bumbás de Fonte Boa foram escritas nas ruas da cidade na segunda metade do
século XX. O primeiro bumbá chamava-se Estrelinha e foi criado em 1922 pelo
senhor Lúcio Guimarães. Em 1935, surgiu o segundo bumbá, o Brilho-dia que foi
criado pelo senhor Damásio, um maranhense. Em 1940, o senhor Damásio cria o
segundo bumbá, o Pingo-de-ouro. No ano de 1953, o senhor Severo da Costa Leite
(Dandã) criou o bumbá Mina-de-ouro. Finalmente, no ano de 1958, o senhor Dandã,
juntamente com o senhor Sebastião Oliveira (Tinho) criaram o bumbá
Tira-Prosa”.
A
versão do boi-bumbá Tira-Prosa sobre sua criação foi contada no tema
“Tira-Prosa: meu boi vermelho vivo”, e cantada em forma de toada no mesmo festival
folclórico em 2005. O texto da toada dizia o seguinte:
Sonho
de vencedor (Cláudio Batista)
Meu
boi de pano,
Conta
a história em toada como tudo começou,
A
arte tomou forma através da inspiração,
De
Chico Vitório, o sonhador.
Boi
Tira-Prosa da cor da paz todo branquinho,
nuvem
pluma de algodão,
tão
cheio de encanto que cativa o coração,
na
testa uma estrela a brilhar.
Mestre
Dandã preservou essa arte popular,
Ao
som da batucada o Tira-Prosa vem brincar,
Fazendo
a evolução, seguindo a voz do cantador,
Avermelhando
a vida de amor.
O
rubro é mais intenso é mais bonito,
Afasta
a solidão de quem te ama,
Mãe
Creuza tua benção iluminou o nosso touro vencedor.
Brinca
meu boi vem dançar levanta a poeira,
Balança
pro teu povo sempre ser feliz,
Revela
o sentido de amar,
Viva
o Tira-Prosa aguerrido,
Meu
boi vermelho-vivo de paixão
(Tira-Prosa, 2005)
(Tira-Prosa, 2005)
Nesta
acepção, a poesia consagra três pessoas importantes através das quais a
protocélula do folguedo – o boi de terreiro
- teria permanecido vivo: Chico Vitório, Dandã e Mãe Creuza. Sobre o
primeiro temos informações imprecisas que dizem respeito à sua origem
nordestina e, segundo o depoimento de dona Creuza Lisboa: “Chico Vitório que
não quis mais, abandonou o boi, já tava velho”. Sobre mestre Dandã, temos dados
mais seguros: chamava-se Severo da Costa Leite, que teria substituído seu Chico
Vitório no comando do Tira-Prosa em meados dos anos 50. Era um nordestino negro
que, segundo dizem, tinha prazer em organizar o boi para dançar em frente às
casas, ganhando algum dinheiro vendendo a língua do boi. Em 1997, o boi-bumbá
Tira-Prosa prestou uma homenagem ao nordestino Severo da Costa Leite, um dos
precursores do boi-bumbá fonteboense, composta por Wilson e Tiago Lisboa. A
letra da toada era a seguinte:
Dandã
(Wilson Lisboa / Tiago Lisboa)
Ele
viveu há muito tempo,
era
de outros festivais,
poucos
aqui o conheceram,
ele
era mestre e alguma coisa a mais.
Quando
chegava o mês de junho homenageava São João,
com
tambores de pele curtida,
fazia
suas próprias toadas,
e
assim nossa cidade cantava.
Quem
lembra teu nome,
quem
lembra teu canto Dandã,
maestro
do meu povo,
me
faz feliz de novo.
(Tira-Prosa, 1997)
(Tira-Prosa, 1997)
O
texto foi escrito provavelmente por quem conheceu (ou pelo menos dele teve
notícia) o mestre Dandã, percebendo
sua importância enquanto cantador,
maestro e tirador de versos improvisados do boi. A toada também
põe em voga um dos instrumentos usados na época pelo boi de terreiro, no caso “tambores de pele curtida”. Por
fim, evidencia-se certo sentido de homenagem atribuído ao boi, isto é, brincava-se nas ruas e terreiros para
homenagear São João no mês de junho (denotando que a brincadeira era
essencialmente junina, ciclo de comemorações aos santos católicos: Santo
Antônio, comemorado dia 13, São João, festejado dia 24 e São Pedro, comemorado
dia 29). Podemos tecer uma analogia com o boi-bumbá Garantido de
Parintins que, segundo algumas versões consagradas, teria “nascido” a partir de
uma promessa feita pelo seu criador Lindolfo Monteverde a São João, em função
da cura de uma enfermidade. Lembremos que o Centro de Convenções de Fonte Boa
(Bumbódromo) recebeu o nome do senhor Dandã.
Sobre a terceira pessoa pela qual o boi teria permanecido “vivo”,
chama-se Creuza Ferreira Lima (chamada de mãe Creuza pelos mais íntimos), matriarca
da família Lisboa, casada com o senhor Sebastião Lisboa, prefeito por duas
vezes da cidade e mãe do senhor Wilson Lisboa, prefeito por três vezes e hoje
deputado estadual. Passou a gostar de brincadeiras vendo o seu pai, José
Ferreira Lima, organizando e brincando pelas ruas de Fonte Boa: “Todos os bois que inventavam na cidade
meu pai estava no meio. Ele era a burrinha do amo, acho que foi por isso”. Filha de cearenses vindos no período
da borracha, tendo uma avó índia (Cocama ou Ticuna?), e um avô peruano, dona
Creuza começou a colocar o boizinho chamado Estrelinha por causa de seu filho
caçula Estênio. Ele chorava e pedia para fazer o boi. Todos os outros filhos
brincavam no boizinho. “Mas, antes de
mim, já existiam outros colocadores de boi como o Arigó da Arapanca, ele
colocava o boi pra fazer medo pros outros”.
Dona Creuza diz que colocava o boi sozinha e depois, passou a contar com a
ajuda de seus filhos, “era apenas uma forma de brincadeira. O boi ia de casa em
casa dançando para quem pagasse por sua língua. Tinha o amo do boi, dona Maria,
os rapazes, os vaqueiros, o doutor, o padreco, a Catirina, o Negro Chico, o
miolo do boi e os índios. O boi morria e vivia através de uma criança colocada
atrás do rabo do boi, em seguida pedia-se para o boi urrar e ele urrava”.
Mais
ou menos neste período recordado por dona Creuza, Charles Wagley (1988, p.206)
realizava seus estudos na comunidade amazônica de Itá (nome fictício atribuído
à cidade de Gurupá no Pará) e sustentava que as “festas de junho – Santo Antônio
(dia 13), São João (dia 24) e São Pedro e São Paulo (dia 29) – são das mais
características e tradicionais do Brasil”. O autor menciona ainda o caráter
socializador dessas festas juninas tradicionais da cultura brasileira, segundo
o mesmo, herdadas de Portugal e adaptadas às novas condições. Elas são motivos
de reunião das famílias ao redor de fogueiras para comerem iguarias
tradicionais, cantarem e dançarem. Dentre as brincadeiras realizadas na época
junina em Itá, Wagley escreve que “o povo prefere o Boi-bumbá”:
Esta comédia do folclore tradicional é representada
por atores locais em várias cidades do Norte do Brasil e em quase todas as
comunidades amazônicas nessa época do ano. Mesmo em Belém várias companhias
apresentam o Boi-bumbá em junho e julho (WAGLEY, 1988, p.207).
Ao
que parece não era somente em Itá que o boi representava o divertimento mais
importante para as pessoas, conforme lemos em Mário Ypiranga Monteiro (1964,
p.54), “é tão universal esse auto na Amazônia, que se pode encontrá-lo até nos
recessos dos seringais (...). Em todos os municípios do Estado, o bumbá é uma
lídima expressão de cultura enraizada nos destinos do povo”.
Eduardo
Galvão (1951, p.276) também realizou estudos em Itá, chamando a atenção para a
“venda da língua do boi” ao “dono da casa” que contratava previamente o grupo
de “brincantes” que, por sua vez, retribuíam a dádiva oferecendo em troca a
encenação do auto do boi. O autor descreve os seguintes personagens do boi de
Itá: amo, dona Maria, primeiro e segundo vaqueiros, pai Francisco ou “Nêgo
Chico” e mãe Catirina, caboclos, índios e seu tuxaua, doutores, o boi e seu
tripa.
Não
é de se estranhar, portanto, que em meados dos anos 40 e 50 do século passado,
o boi-bumbá fosse a maior atração pública existente em Fonte Boa no período
junino, inclusive com a apresentação da tragicomédia por mais de um grupo de
brincantes. Num outro trabalho, Mario Ypiranga Monteiro (2006, p.218), com base
no Serviço de Estatística do Amazonas (SEA) referente às ocorrências do bumbá
no interior do Estado, registra o seguinte no ano de 1957:
Quadro
6 – Ocorrência do boi-bumbá em Fonte Boa (1957)
|
Lugares
|
Nome
|
Quant.
|
Caract.
|
Ocorrên.
|
Designação
|
|
Fonte
Boa
|
|
1
|
Semelhantes
|
Via
pública
|
Boi-bumbá
|
Fonte: SEA, 1957.
É
preciso enfatizar que as informações referentes a cada boi-bumbá das cidades do
interior eram obtidas por meio de depoimentos de pessoas encarregadas em
pesquisar a referida manifestação popular. No caso de Fonte Boa, o informante
foi Oscar Hayden, que infelizmente não declarou o nome do boi-bumbá observado.
Se traçarmos um paralelo entre as falas das pessoas que brincaram nos terreiros
fonteboenses e a fonte apresentada pelo folclorista amazonense, pode-se
concluir que o boi-bumbá que se apresentava nas vias públicas de Fonte Boa em
1957 era provavelmente o Pingo-de-Ouro ou o Tira-Prosa, ambos organizados pelo
senhor Dandã. Sendo que outros “boizinhos” de menor expressão também
perambulavam pelas ruas durante esse período.
Nossos
informantes se referem com muita propriedade à brincadeira daquele tempo.
Segundo os mesmos, o boi dançava nos terreiros, nas ruas e na frente das casas
daqueles que pagavam. Havia o chamamento do boi que ficava no meio da mata
escondido. Os vaqueiros e toda a roda cantavam: “Vaqueiro de fama, estou te chamando e vai buscar meu boi pra roda, que
o povo tá esperando...”. Quando se ouviam os foguetes era porque o boi
tinha sido encontrado, motivo de alegria da população. O boi vinha todo sujo de
mato e lama, no caminho ele dava cabeçadas nas portas das casas, mas ninguém
ficava com raiva, pois era uma festa, um prazer para a população que se reunia
espontaneamente no mês de junho para brincar. Os materiais usados para a
confecção das fantasias do boi de terreiro
eram simples: papel de seda colorido, penas de garça, gavião, arara,
coladas com goma, chapéus de Carnaúba enfeitados com espelhinhos, fitas,
algodão e papel brilhoso, além das máscaras de papelão.
No
final da encenação, o boi era repartido, cada pedaço ia para alguém conhecido
da cidade. Era uma alegria (e até honra) receber um pedaço do boi. O que se
observa é o caráter socializador da brincadeira, ansiosamente esperada pela
população, agregando gente, em oposição, também sustentando as hierarquias
sociais vigentes, como consta na “repartição do boi” somente às pessoas
importantes. Quanto aos personagens do enredo, Wallace Caresto em entrevista
lembra dos seguintes:
“O meu pai, Egberto Caresto, aprendeu a fazer o boi em
Fonte Boa mesmo. Neste período além dele, o Pote era o Amo, Eu também fazia
participação de Amo, o Moaca era o miolo, existiam os índios, os Negos Chico.
Brincavam adultos e crianças na mesma roda de boi”. Sabá Lima também cita
alguns personagens do antigo boi de terreiro: “Eu tenho uma vaga lembrança como
eram os personagens, o pajé, o padre, o doutor, um cordão de índios, e o
auto-do-boi que naquele tempo ninguém sabia o que era auto-do-boi, aquela morte
e ressurreição do boi, então eu achava tudo isso muito interessante”.
Com
uma ou outra variação, o enredo e os personagens identificados pelos brincantes
do antigo boi de terreiro fonteboense,
são similares aos presentes no boi “Dois de Oiro”, descrito por Wagley em Itá,
no ano de 1948. Lá como aqui, as “palavras da peça são faladas e cantadas”, com
versos tradicionais que “nunca deixam de provocar risos na audiência, apesar de
terem sido ouvidos vezes sem conta”.
Depois da primeira representação qualquer pessoa pode
convidar o grupo para representar em frente à sua residência. Todas as famílias
da Primeira Classe sentem-se obrigadas a solicitar uma representação e muitas
insistem mesmo para tê-las em suas casas. Em certas noites, principalmente nos
dias da festas dos três santos, o grupo representa várias vezes (...) Todas as
representações são muito concorridas. O dono da casa oferece cadeiras e
refrescos aos amigos, parentes e compadres. Os demais juntam-se na rua para assistir à função (WAGLEY, 1988,
p. 210).
Charles
Wagley já notara o sentido de disputa, certa rivalidade entre os grupos de bois
antigos de Itá, que se desafiavam para ver quem se apresentava mais bonito, com
“as fantasias mais luxuosas e os atores mais originais”. Comparando com Fonte
Boa, Tira-Prosa e Estrelinha, devem ter sintetizado essas primeiras “disputas”
(e brigas) pelas ruas e terreiros da cidade que, decerto, já agregavam alguns
símbolos de diferenciação em relação ao “outro”, como as famílias responsáveis
pelo boi e o local de sua origem (bairro).
Na
verdade, as imagens simbólicas do antigo boi de terreiro fonteboense eram formadas a partir do próprio cotidiano vivido por
seus participantes cujas experiências eram narradas ou cantadas registrando
acontecimentos triviais da sociedade local, ou mesmo fatos mais importantes de
outros lugares, além das atividades de trabalho (pesca, caça, roça), os laços de
parentesco, as relações com autoridades da cidade e os conflitos sociais. Pelo
que ouvimos falar, a partida do boi era motivo de tristeza e nostalgia, toadas
de despedida eram cantadas sempre aludindo à próxima temporada de boi e à
saudade que o boi deixara.
José
Aldemir (2000, p.205) faz uma referência interessante entre as habitações das
pequenas cidades amazônicas e sua relação com a cultura indígena, segundo ele
até hoje negligenciada pelos estudiosos da região, trata-se do terreiro de
terra batida. Realmente o terreiro na frente das casas aparece sempre como uma
área muito limpa não cercada entre a casa e a rua, na zona urbana é onde se
realizam os festejos de santo ou alguma outra comemoração coletiva como aniversários
na zona rural também servem como espaço de festa em especial às religiosas,
apesar de pertencente a uma determinada casa, o terreiro de terra onde o boi
brincava era coletivizado, permanecendo ocupado por pessoas diferentes desde o
começo da noite até altas horas da madrugada quando o boi e sua trupe se despediam
como demonstra a toada de autoria de Antônia Lisboa: “Varre o terreiro bem limpo, óh linda morena, o meu boi vai chegar, boi
do meu coração...” (Enfeite de Amor, Tira-Prosa, 1997). Apesar do avanço do
concreto sobre os terreiros de terra batida, ainda é possível observar a
existência desses espaços de sociabilidade na cidade que guardam inequívocas
semelhanças com o terreiro das aldeias indígenas[1].
As
pessoas que viveram a brincadeira do boi de terreiro mais antiga em Fonte Boa, ainda
recordam de cantigas (toadas) cantadas durante as apresentações nos terreiros
daqueles que podiam pagar para ver o boi dançar. O professor Sebastião Lima,
que durante muitos anos foi brincante de boi (amo do boi Tira-Prosa), além de
organizador do referido bumbá e coordenador de cultura do município, relembra
alguns trechos de toadas e versos antigos do boi de rua fonteboense:
Oh
lua, que tanto brilha, que ilumina quase o mundo inteiro...
Xô,
passarinho, meu gavião totoriá, oh vaqueiro pega na vara tá na hora de matar...
Vem
vê, morena vem vê, vem vê qual é o maior, venha ver boi Tira-Prosa que esse ano
é o melhor...
E
rola e rola e rola boi, e rola boi-bumbá, quem mandou você rolar, e rola
boi-bumbá...
Eu
tava na beira da praia, quando meu boi embarcou, foi a prenda mais bonita que
as águas do mar levou, adeus, adeus que já vou, pois despedida quem vai sou
eu...
Esse
ano o trunfo é paus, meu baralho não negou, eu levei atirei paus, eu tirei
balanceou...
Estes
versos, em grande parte de autoria desconhecida, demonstram a simplicidade dos
motivos do boi-bumbá de terreiro: a lua, o versador que canta toadas
lisonjeiras à morena bela, o brincar São João à luz da fogueira, o tom do
desafio que marcava os encontros entre bois rivais (Tira-Prosa e Estrelinha,
por exemplo) que, segundo nossos informantes, sempre terminavam em brigas de
paus e estacas, às vezes o próprio boi servia como “arma”, já que era feito de
madeira e cipós resistentes. Deve-se mencionar que até meados dos anos 80 não
havia uma preocupação com a ecologia, com a questão indígena ou com a tradição
cabocla, as toadas feitas por pessoas simples agregavam elementos curtos e
singelos de seu universo cotidiano.
Em relação ao boi de terreiro fonteboense,
é possível dizer que ele seguia basicamente a mesma estrutura narrativa e de
apresentação de outros bumbás da Amazônia e, como afirma Amaral (1998, p.274)
colocava “a cultura nas ruas, revivendo a história do povo representada pelo
próprio povo...”.
Após a fase de terreiro, terminada
no final da década de 70 quando a família Oliveira, decepcionada com a falta de
incentivo, deixa de colocar a brincadeira com toda a sua expressividade
anterior (mesmo que seu Catulino - João Alfredo de Oliveira Filho, figura
proeminente dessa fase - ainda tenha organizado o folguedo até o início da
década de 90, pouco antes de sua morte), o bumbá fonteboense inicia um
segundo momento ao qual denominamos de boi de escola[2], quando
a partir dos anos 80, professores, alunos, gestores e funcionários das escolas
estaduais passaram a organizar e apresentar a brincadeira. “Em relação ao boi de escola,
eu já era profissional, já trabalhava como professor, então havia a disputa
entre o boi da minha escola, Waldemarina, acho que era o Tira-Prosa, e o boi do
São José, Banho-de-Ouro. Então já havia uma disputa, mas não com essa alegoria
de hoje, havia uma disputa com alguma inovação. Eu lembro que na gestão da
professora Jany Lins, foi apresentado no boi um dragão, então a inovação já
começava a partir daí”, recorda o professor Sabá Lima em entrevista ao
pesquisador.
A quadra da escola estadual São José no centro da cidade foi a primeira a
receber a apresentação de cordões folclóricos organizados para a disputa de
melhor da festa, dentre os quais a dança do boi (a escola criou o boi Banho-de-Ouro
com as cores amarelo e preto), nesta sua nova fase. Segundo dizem, a quadra foi
construída durante a gestão do prefeito Francisco Pereira de Souza, no início
da década de 80 do século passado, atendendo a pedidos de um grupo de
professores que criavam naquele momento o I Festival Folclórico, justamente
para este fim. A escola estadual Waldemarina Ferreira também realizou em 1988 a
sua festa junina, no pátio onde ao redor foram erguidas arquibancadas de
madeira, que contou com a apresentação de diversas danças e do boi-bumbá.
Em 09 de abril de 1997, alguns professores e admiradores da brincadeira
do boi da Cidade Nova lavraram
a autuação do “Histórico do boi-bumbá Corajoso”, mencionada em processo,
registrado no Cartório Público de Fonte Boa, Livro nº B-9- fls.124, número de
ordem 299, na secção títulos e documentos:
Surgiu em 1991, pelo professor Francisco das Chagas
Fernandes de Freitas, então Diretor da Escola Estadual Arthur Costa e Silva,
que pela primeira vez apresentou o boi-bumbá com o nome de Caprichoso, nas
cores azul e branco, que consagrou-se campeão, conquistando seu espaço no
Folclore fonteboense.
No ano seguinte, o referido bumbá, por motivo óbvio,
conquistou apenas o segundo lugar.
No período de dois anos, ou seja, 1991 a 1992, o
boi-bumbá Caprichoso, com cores de origem, permaneceu representando a escola acima citada.
Em 1993, em comum acordo com o professor Francisco das
Chagas Fernandes de Freitas, foi criada uma Comissão Organizadora, sendo eleito
por unanimidade como presidente o referido professor e como vice-presidente a
Sra. Vanusa Torres, que neste ano mais uma vez consagrou-se campeão, sendo,
portanto, bi-campeão do disputadíssimo Folclore fonteboense.
Em 1994, o referido bumbá não se apresentou por
motivos particulares.
Em 1995, para evitar plágio aos bumbás de vários
municípios do Estado do Amazonas, o Presidente convocou vários participantes
para uma reunião sobre a substituição de nome Caprichoso, foi decidido por
unanimidade um outro nome: Corajoso, que foi devidamente registrado pelo Sr.
Francisco das Chagas Fernandes de Freitas, fundador e o mesmo consagrou-se
tri-campeão de 1995.
Em 1996, por motivos óbvios não se apresentou...
O
supracitado texto é imprescindível para a análise do boi fonteboense na sua
fase de escola, chamando a atenção sobre algumas questões pontuais para o nosso
estudo: o boi de escola não era
formado apenas por pessoas envolvidas com a instituição de ensino, isto é,
pessoas “de fora” da comunidade escolar também faziam parte da preparação e
apresentação do boi, caso da senhora Vanusa Torres, Wallace Caresto, Paulo
Cobra, Doso, que não eram professores nem funcionários da escola Armando Mendes.
A versão atual de boi de arena, surgido diretamente da fase escola
anterior, tem como marco a criação do Festival Folclórico de Fonte Boa por um
grupo de professores em 1980, conforme dito acima. O Festival foi criado pelas
escolas na gestão do prefeito Francisco Pereira de Souza, com o objetivo de
“resgatar” antigas brincadeiras da cidade, como as danças, as quadrilhas e o
boi-bumbá. Destacam-se, neste período, os professores Humberto Lisboa, Jesuete
Pacheco, Dorgival Lisboa, Jany Lins, Terezinha Braga, Pedro André, Graça André,
Graça Affonso, Francisco das Chagas, etc. Não obstante, os bois só foram
efetivar suas apresentações nesta Festival a partir dos anos 90, tanto que as
maiores atrações da festa junina eram as danças como o Barqueiro, o Caipirão, o
Gambá, a Dança Portuguesa e as quadrilhas. Pouco depois, como informa o professor
Sebastião Lima, o boi saiu das escolas: “Pela necessidade de expansão
do Festival Folclórico, nós achamos melhor trazer a escola, fazendo com que o
boi deixasse de ser da escola e passasse a ser um boi do município. Só houve
essa transferência, mas os brincantes continuaram a ser da escola, e são até
hoje. Então as escolas tiveram participação importante na efetivação dessa
disputa”. A partir de então os bois-bumbás ofuscaram as outras manifestações
que, cada vez mais acanhadas, hoje recebem pouca atenção das pessoas e
autoridades da cidade.
A dinâmica da trajetória do boi-bumbá de Fonte Boa, do terreiro à arena,
incide na noção de movimento, de “passagem”, defendida por Henri Lefebvre (1991) quando ele discute
a ideia de centralidades culturais móveis. Tanto o terreiro, quanto a quadra da
escola e agora a arena, tornaram-se centralidades pelas quais os grupos que
legitimaram o boi passaram, tecendo redes de relações sociais, fazendo a
sociedade comungar consigo mesma e atuando como mecanismo catalizador das
emoções, criatividade e participabilidade apoiada na construção coletiva,
dentro de diferentes contextos espaciais. Quando em meados dos anos 90,
professores e alunos “levaram” o boi-bumbá para dentro da escola, passando a
confeccionar no mês de junho as fantasias e adereços, o próprio boi Corajoso
tendo como primeira “morada” uma das salas da escola estadual Armando Mendes,
junto às fitas coloridas, cola e plumas, ocorreu que um espaço normalmente
designado ao estudo tornava-se durante um período de tempo, um “espaço
especial”, sobretudo, local do encontro de admiradores para a preparação do boi.
Como recorda um dos fundadores do boi de escola fonteboense:
“A gente se reunia no Armando Mendes pra fazer o boi.
Os professores, alunos, e outras pessoas passavam o dia e entravam pela noite,
aliás de noite era que o trabalho aumentava, confeccionando as fantasias ou
ensaiando, nesse tempo tinha a rainha do leite, a florista. O boi de madeira
deu um trabalho pra fazer ele mexer a cabeça, improvisamos o movimento com
pneus de borracha”.
A fala do professor Francisco das Chagas em conversa com o pesquisador em
outubro de 2008, revela que fora os funcionários e alunos da escola, outras pessoas ajudavam na
confecção do boi, o que nos leva a pensar que indivíduos diferentes se
reconhecem “não por intermédio de vínculos construídos no dia-a-dia do bairro
-, mas sim se reconhecem enquanto portadores dos mesmos símbolos que remetem a
gostos, orientações, valores, hábitos de consumo...” (MAGNANI, 2000). Então, a empatia ou a
proximidade se constituíram em suportes de uma experiência que acentuava
intensamente as relações emocionais e dos contatos afetivos, que multiplica ao
infinito as comunicações, e efetua, repentinamente, uma abertura recíproca
entre as consciências na medida em que a festa não mais necessita de símbolos e
inventa as suas figurações que desaparecem, muitas vezes. E são nesses espaços
culturais, quer no terreiro quer na arena maximizada, que conviveram todas as
possibilidades de expressão da cultura popular local.
De acordo com Lefebvre (1991) e Magnani (2000), pode-se ponderar que não
são apenas as calçadas, os prédios e as ruas que dão forma às cidades, mas
todas as dimensões da vida humana em coletividade, sendo assim, a festa dos
bois-bumbás em Fonte Boa tornou-se um elemento de indução das espacialidades,
promovendo alguns lugares como “especiais”, centrais, no que tange ao encontro
e à sociabilidade, além dos terreiros, pátios e quadras das escolas no passado,
citemos o Bumbódromo hoje. Com efeito, ao que tudo indica os espaços tornaram-se
“especiais”, frutos das vivências e da experiência do grupo social que com ele
possui um vínculo indissociável.
Tudo nos leva a crer que embora o
evento do boi fonteboense há muito tenha deixado pelos terreiros, quadras e
pátios boa parte de seu lado de invenção lúdica, tornando-se um espetáculo
metamorfoseado pelas contingências urbanas e mercadológicas, percebe-se
claramente que ainda persistem elementos populares resinificados, seja no auto
que mantém a trama original ou mesmo na participação efetiva dos antigos
brincantes do boi de terreiro na versão atual de arena, dando a legitimidade da
tradição à festa.
Pensando nessas mudanças, nesta sua trajetória do terreiro à arena, o
boi-bumbá de Fonte Boa vem modificando seu conjunto simbólico, embora
observemos notórios elementos de continuidade como a rivalidade entre dois
grupos rivais, a questão do lúdico, de brincadeira como o boi é carinhosamente
chamado por muitos de seus participantes, a presença de diversos personagens do
auto, a exaltação da mulher morena, por outro lado são evidentes as mudanças
que vão desde a adoção de temáticas regionais pelos temas e toadas (imaginário
indígena, vida cabocla), passando pela profissionalização – artesãos
tornaram-se artistas contratados que utilizam técnicas plásticas modernas, a
morena bela torna-se cunhã-poranga, o grupo de índios, antes servil e sem graça
que vai à procura de Pai Francisco agora é a tribo coreografada cheia de cores
e ritmos, o pajé, outrora simples curandeiro que fazia o boi ressuscitar, ganha
poderes mágicos para combater feras medonhas do imaginário amazônico, o papel
de índio e caboclo ganha notoriedade, tambores forrados com pele de anta ou
onça curtidas ao sol transformam-se nas poderosas batucadas com seus tambores e
caixas amplificadas, as famílias que pagavam para ver o boi dançar em frente às
suas casas foram substituídas pelo poder público, os “donos” ou “famílias”
deram lugar às diretorias.
Preterindo toda e qualquer visão romântica da festa dos bumbás locais,
pode-se falar em mudança cultural, com rupturas e continuidades inerentes à
condição dinâmica da própria cultura popular que se redimensiona conforme as
influências: a festa ainda anda de mãos dadas com o lúdico, mas sem abandonar a
competição institucionalizada, seu motor propulsor. Saber tradicional e
modernidade caminham lado a lado, talvez não de forma harmoniosa, jamais vai
ser assim, mas com certeza de maneira aceitável – o boi é um fenômeno
sociocultural aberto. A tradição germinou nos terreiros, fincando-se no
espírito do povo, efetivou-se nas escolas já com alguma inovação, ficando assim
pronta para receber e adequar-se às exigências da modernidade no boi de arena. Como sintetizou um de nossos
informantes: “as mudanças enriqueceram a tradição”.
Nesta caminhada de quase 80 anos do bumbá fonteboense, as brigas de rua
cederam lugar a uma disputa regulamentada com jurados e itens, sujeitos e
famílias, em diferentes momentos, exerceram papéis importantes (e ainda
exercem), boizinhos surgiram para depois desaparecerem, lugares tornaram-se
especiais para mais tarde serem substituídos, é com Corajoso e Tira-Prosa que a
festa vai alcançar seu amadurecimento, entre as fases de escola e arena, que a sociedade fonteboense vai se
identificar, se polarizar e tentar “ser vista” e “reconhecida” para além de
suas fronteiras, a partir de uma “luta” entre facções para melhor
representá-la, tendo o bumbás como instrumento para este intento.
Até
aqui a análise das fontes nos sugere que a brincadeira do boi, do ponto de
vista histórico seja em Fonte Boa ou em Parintins, teve início nas ruas,
terreiros e quintais à luz de lamparinas, nas rodas de pescadores, seringueiros
e agricultores que perambulavam a fim de celebrar os santos juninos. Aliás, a
figura do seringueiro parece ter sido preponderante na configuração do boi com
novos enredos e personagens, desde Tupinambarana na fronteira com o Pará,
passando por Manaus, até chegar ao Alto Solimões. Pelo menos aqui não temos
provas de que a encenação do auto-do-boi foi usada como instrumento de
catequese religiosa, todos os caminhos nos levam às migrações nordestinas no
período áureo da borracha, e à inserção de seu principal folguedo na vida
comunitária fonteboense.
De
maneira panorâmica, reportando-nos aos itens de arena de cada Festival, pode-se
mencionar que em Fonte Boa existem os personagens rainha da batucada ou marujada, trajes regionais e guardiãs
do bumbá que não existem em Parintins. Outro ponto de diferença
refere-se ao fato do item toada, letra
e interpretação ser obrigatoriamente inédito em cada noite no bumbá
fonteboense, o que não ocorre no boi da ilha Tupinambarana. Uma marca de
tradição no boi de Parintins é a vaqueirada (os guardiões do boi) que é item de
julgamento, enquanto em Fonte Boa forma apenas elemento de composição cênica
quando entra o boi. Quesitos como galera
(que também deve se manter em profundo silêncio quando da
apresentação do outro boi, e isto realmente ocorre), alegoria, tuxauas, levantador de toadas, sinhazinha, cunhã-poranga, o
boi-bumbá, dentre outros, possuem basicamente as mesmas características
e funções cênicas nas duas festas.
Outro
ponto interessante, no boi-bumbá de Fonte Boa um brincante de uma agremiação
não pode se apresentar na outra, pelo menos não no mesmo ano. Nossas
observações dão conta de que a mudança para o boi “contrário”, mesmo que seja
no outro festival, é motivo de discórdia, projetando sobre o indivíduo que muda
uma marca de um quase “traidor”, passando a ser visto com desconfiança e até
aversão por parte dos brincantes e torcedores de seu antigo boi. Logicamente
que a história dos bois mostra diversas mudanças, inclusive em postos
importantes da diretoria, mas tais casos refletiram durante muito tempo no
contexto da festa, e a pessoa que mudava ficava entre a raiva do grupo de seu
antigo boi e a desconfiança do grupo que o recebia. Um exemplo constatado é o
do apresentador do boi Corajoso em 2007, Gilson Nascimento que, durante muito
tempo desempenhou esta função no boi Tira-Prosa. Ao mudar de agremiação, sofreu
retaliações da torcida vermelha e branca, inclusive com sérias agressões
verbais e tentativa de agressões físicas após a divulgação do resultado que deu
a vitória ao seu novo boi. Se olharmos o Carnaval Carioca ou Paulista sob esta
ótica dos bois o sentimento será, no mínimo, de espanto geral, com a atitude de
artistas de televisão ou foliões anônimos que ao término de uma apresentação
correm suados, trocam depressa de fantasia a fim de desfilar nas próximas
Escolas de Samba, algo inconcebível entre os bumbás fonteboenses. A etnografia
de Braga (2002, p.114) sobre a festa dos bois de Parintins demonstra o
contrário do que identificamos em Fonte Boa, isto é, lá “Pode-se desfilar tanto
no Garantido como no Caprichoso (...) Existem brincantes que desfilam nos dois
bois-bumbás, em um mesmo ano”.
O
que é inegável nas duas festas, a revisão da literatura acerca dos bois
parintinenses e nossa etnografia sobre os bois de Fonte Boa deixam evidente, é
a legitimação da cultura da festa por parte de ambas as populações que são
fascinadas pelo boi-bumbá. Talvez o amor por cada boi em Parintins tenha
seguido outros caminhos diferentes daqueles de Fonte Boa, porém, em último
caso, os povos gostam do que apresentam, orgulham-se do que fazem e da história
de sua brincadeira que, obviamente, guardadas as devidas proporções, atraem
gente, dão oportunidade de trabalho, erguem carreiras artísticas, por outro
lado, deixam dívidas e expõem as mazelas das sociedades, mas e, sobretudo,
representam o que cada uma das cidades diz produzir de melhor.
Quanto
aos personagens, o que se pode dizer é que o boi-bumbá moderno busca o novo sem
a negação do antigo. Ou seja, o novo só é possível graças à reafirmação do
antigo, a inserção de novos elementos mediados pela tecnologia moderna não
representa a supressão do passado, mas este passado fecunda-se com os símbolos
da modernidade, fundindo-se num auto-do-boi diferente. Em Fonte Boa Pai
Francisco e Catirina permanecem até com mais proeminência que antigamente, já
que hoje são itens que concorrem a pontos; as tribos, os tocadores, sinhazinha,
o boi o pajé, os vaqueiros, o amo, continuam fazendo parte da trama;
porta-estandarte, cunhã-poranga, rainha do folclore, guardiães do bumbá, rainha
dos percussionistas, são personagens
novos, que longe de degradar o drama original, demonstram a abertura ao
ambiente cultural que só pode ser compreendida a partir de seus contextos
concretos. Se julgamos que a cultura popular não pode ser pensada enclausurada
pelo passado ou destruída pelas novas contingências modernas, do mesmo modo não
podemos achar que o desaparecimento de personagens como o padre e o doutor,
representa uma perda irreparável para os bumbás, até porque a dinâmica cultural
inerente à própria essência da festa regional se encarregou de exaltar a figura
do pajé indígena, que assumiu a exclusividade da cura nesta nova versão do
boi.
Não
há como negar o dispositivo simbólico do auto-do-boi que explicita o problema
das três raças no Brasil: o negro, o branco e o índio. Em praticamente todos os
bois do Brasil, certamente em Parintins e Fonte Boa também, de modo tenso e
cheio de ambivalências esta manifestação popular manipula, desde seus
primórdios, códigos sociais vinculados à
formação de nossa “brasilidade”.
É possível observar um forte sentido simbólico nas letras das toadas,
fantasias e alegorias dos bois que jogam com motivos culturais regionais, o que
confere à festa fonteboense uma série de elementos que expressam uma espécie de
imaginário amazônico. Como explica Lévi-Strauss (1982), um jogo
se efetiva em função de regras culturalmente construídas e nas múltiplas
partidas que se joga, que tendem ao infinito. A cultura popular afirma os
valores dos envolvidos na festa, o brincar de boi torna-se ferramenta de
crítica, de sarcasmo e de luta social, a rivalidade cultural se agrega a outros
elementos arcaicos e cresce em Fonte Boa.
Em texto recente, o poeta paraense João de Jesus
Paes Loureiro (2002, p.119) escreveu sobre um fator importante do que ele chama
de “civilização cabocla”: “na Amazônia também, como em todo o Brasil, o cidadão
se expressa essencialmente pela emoção”. Pensar nos sujeitos que moram na
região amazônica como tendo função determinante na construção de um imaginário
regional, por operarem com símbolos peculiares à sua própria cultura, é
compreender que os indivíduos, tal qual sugere Durand (2001), “tem um papel na
dinâmica das culturas humanas”, cujos resultados “são produções intelectuais
que se expressam na poesia, na classificação das coisas, em taxionomias, ou de
outros sujeitos em diferentes formas de organização e convivência social”
(BRAGA, 2005, p. 3). É, de fato, o que nos sugere a interpretação da festa dos
bumbás, pois nela o fonteboense estabelece uma ponte com a sua
história, seus anseios, seus conflitos, sua arte e capacidade imaginativa,
construindo relações intra e extra-comunitárias, uma vez que tal manifestação
cultural exige a participação não somente das comunidades rurais do município,
mas também de outras cidades na sua construção e apresentação.
Na
festa dos bumbás, a figura do caboclo, enquanto homem amazônico vem assumindo
outro significado, orgulhando-se em ser mestiço, descendente das antigas tribos
que miscigenaram-se com os brancos e negros que para cá vieram, este sujeito
agora assume ativamente um comprometimento com a preservação da natureza circundante
e com os demais problemas relativos à Amazônia. São inúmeras as composições que
exaltam de forma romantizada a figura do “caboclo”, como esta do Tira-Prosa
(2002): “Sou caboclo, sou tão forte, sou
valente vivo a lutar...”. É pertinente lembrar que ao discutir sobre o conceito de “caboclo”, deve-se atentar para o
longo processo histórico de trocas, fricções, misturas e cruzamentos feitos de
memórias, mas, sobretudo, de esquecimentos, durante a caminhada de formação desse tipo humano.
[1] Ainda segundo o autor não
é somente no terreiro que podemos notar os rastros de uma cultura indígena nas
pequenas cidades amazônicas, sobretudo, nas situadas nas margens dos rios, mas
também na alimentação: os vinhos de abacaba, açaí, patauá, o peixe moqueado, o
beiju, a carimã, a piracaia; na cestaria especialmente o paneiro; nos
instrumentos de pesca, o arco e a flecha.
[2] É interessante notar na
atualidade a importância das escolas como “centros” de incentivo e produção da
cultura nas cidades interioranas do Amazonas. Parece que depois do tempo de rua
e terreiro, com o avanço das proibições legais e mesmo com a diminuição dos
espaços públicos, foi na escola que as manifestações socioculturais encontraram
um porto seguro, ressignificando-se e recebendo toda espécie de influências que
garantiram, de alguma forma, sua permanência. Não são poucos os exemplos de
manifestações populares que floresceram ou se desenvolveram em escolas, citemos
como evento emblemático as cirandas de Manacapuru.
Texto adaptado da Dissertação de mestrado intitulada “A festa na cidade que o barranco levou: dinâmicas culturais e políticas do brincar de boi em Fonte Boa (AM)”, de autoria de Yomarley Holanda – professor e coordenador de curso da Universidade do Estado do Amazonas (UEA/CEST).
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